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A perda

Ainda não podia acreditar naquelas palavras. Elas soavam na minha mente como um pesadelo, um eco e finalmente, um vazio. O chão caiu sobre meus pensamentos e eu não conseguia ver mais nada do que se passava no momento. Parecia que tudo se fechava, escurecia e morria. Todos os risos, frases e gestos se foram, ficando só as lembranças, que, em minha confusão, nem tinha certeza de que um dia pudesse ter acontecido – diante da fragilidade com que se quebrava aquele elo, aparentemente tão forte. Não era mais uma história triste, em que se perdia um ente querido, era minha história, minha perda, meu sofrimento.

Quando me concentrava, ainda podia ver os olhos brilhando, pedindo-me calma com alguns sussurros. Aquilo para mim era o fim. Eu, depois de tantos anos trabalhando nessa área, deveria saber que a vida não se sustenta a base de sentimentos, mas de probabilidades entre um dia e outro sobre um destino incerto. Pelo menos é isso que prega a ciência. Todo profissional deveria ter seu momento de insensibilidade, mas no meu caso, o profissionalismo de nada serviria.

***

Era uma manhã de quarta-feira e ela sorria para mim como sempre. Aquele era o combustível que me fazia seguir em frente no trabalho. Logicamente, eu amava meu emprego, no entanto, era preciso saber a hora de ser forte em certos momentos como a perda de um paciente, por exemplo, e o sorriso dela servia perfeitamente como um consolo natural. As primeiras vezes foram horríveis e eu mal conseguia conviver comigo mesmo, mas é como dizem por aí: “A experiência é o costume para nossas fraquezas”, e foi justamente nesse ditado que me espelhei. Trabalhei duro para edificar a fama de “salvador dos casos perdidos”. Construí uma barreira intransponível que me separava do restante dos outros médicos que possuíam a mesma especialidade que eu. Minha vida era um sonho conquistado: bem requisitado e bem casado – muito bem, eu diria. Tudo era esteticamente perfeito até aquele momento.

Guardei na maleta algumas contas que eu teria que pagar depois que saísse do hospital, recebi o beijo dela e fui para mais um dia de batalha.

Desci do carro e corri para a sala de urgências médicas. Tinha muito trabalho naquele dia e não havia me lembrado da quantidade de cirurgias marcadas. Minha cabeça estava ocupada demais com outras coisas, a exemplo das dores que minha mulher sentia. Eram quase que constantes, mas eu já a tinha encaminhado para um colega – clínico geral. Ele marcaria exames de revisão e não demoraria muito para a solução do problema aparecer. Não eram dores muito fortes, segundo ela, mas a freqüência com que aconteciam… Aquilo não era normal e estavam começando a me deixar preocupado. Lembrei também que era a data de vencimento das contas. Tantos afazeres, compromissos e preocupações não estavam me fazendo muito bem. Talvez algum tempo de férias resolvessem, mas a medicina era a minha vida. Tirar outras pessoas da beira da morte revigorava-me e firmava a certeza de que era aquilo que eu sempre quis fazer.

O dia agora era noite. Ninguém na sala de espera ou na cama de cirurgia. Poucas pessoas ocupavam o corredor; alguns enfermeiros e só. Atravessei as cancelas com ligeira pressa. A cada segundo uma angústia tomava conta de mim. O telefone toca: era o meu colega. Com um tom de voz diferente do normal, ele começou. Cinqüenta e três segundos… Esse foi o tempo de duração da notícia. Esse foi o tempo que eu agüentei ouvir.

Corri para a recepção restando-me apenas esperar. Minha esposa era trazida em uma ambulância solicitada às pressas. De acordo com os exames, a causa das dores sentidas por ela era o agrupamento de pequenos tumores no estômago. Poderiam ser retirados com certa facilidade por mim (essa era uma das minhas especialidades), mas devo admitir que estava nervoso. A ambulância chegou precisamente às onze e quarenta da noite. Ela gemia de dor. Havia piorado ao longo do dia e eu lembro de ter me culpado profundamente por isso. O trabalho me consumia e eu não tinha mais o tempo de antes para dedicar a família. Eu me sentia reduzido à insignificância.

Embora estivesse nervoso, minha vontade de salvá-la era infinitamente maior. Ao vê-la deitada naquela mesa de cirurgia, percebi que estava em jogo toda uma vida que me completava e que me dava sustentação. Enquanto ela me encarava com seus olhos reluzentes e cheios de esperança eu inclinava-me para ouvir seus sussurros que custavam a sair, mas que deram cada vez mais vivacidade àquele momento… Deu-se início à operação.

Foi uma cirurgia com um tempo razoável. Eu poderia ter sido mais breve, mas queria ter a certeza de que tudo ocorreria bem. Havia exatamente dois tumores em formação dentro do estômago dela, que eu retirei com certa rapidez, só que algo ainda não estava certo. E foi então que ocorreu uma inesperada parada respiratória. Eu tinha que pensar rápido. Uma parada respiratória significava uma posterior parada cardíaca e então tudo poderia estar perdido. Mandei que os enfermeiros introduzissem um tubo de respiração artificial. Isso fez com que eu ganhasse algum tempo até refazer a incisão e descobrir a causa da sua recaída. Era uma terrível verdade que estava prestes a ser descoberta e foi isso que recaiu sobre mim. Os dois tumores em formação, na verdade, eram apenas uma extensão do problema que se agravava subitamente durante todo esse tempo. As dores, cada vez mais constantes, eram provenientes da existência de outros tumores que se espalhavam pelo resto do seu corpo. Iam desde o intestino delgado até às paredes do estômago. Mas isso não explicava a parada respiratória, então, para minha agonia, fui mais afundo. A descoberta que eu tanto queria encontrar foi a mais dolorosa de todas: mais tumores. Esses debilitavam a maior parte do sistema respiratório, causando assim, a parada.

Nesse momento, pude sentir todo peso do mundo em minhas costas e por mais que eu tentasse evitar, não consegui que as lágrimas escorressem pelo meu rosto. Eu estava perdendo a única pessoa que realmente me importava. E nem todo o meu poder juntamente com minha experiência ajudariam naquela hora. Foi aí que aconteceu: falha múltipla dos órgãos. As lágrimas impossibilitavam-me de ter uma visão nítida do que acontecia, mas pude perceber que o marcador das batidas cardíacas, antes oscilante, estava agora em uma linha reta e com um som torturante que me consumia devagar. Tentamos o desfibrilador em vão. Não havia mais nada a se tentar. Foi assim que a madrugada se firmou. O fim de uma cirurgia… O fim de uma vida… O fim da minha vida como estava habituado a viver.

Caminhei desolado por aqueles corredores que estavam mais vazios que antes e cheguei até minha sala. Estava tudo como eu havia deixado. Abri a janela e vi o mundo de doze andares acima. Eu iria de encontro ao chão naquele momento. Iria ao encontro dela, que agora não estava mais comigo. Inclinei meu corpo para fora da janela e fiquei de pé no pequeno batente que me apoiava sem segurança alguma. A noite estava linda para uma coisa tão terrível ter acontecido e a lua me fez lembrar do nosso primeiro encontro. Foi um dos melhores dias da minha miserável vida. Eu não podia entender como algo perfeito poderia se transformar em uma coisa sem valor algum. O meu “sonho conquistado” tinha ido por água abaixo e eu estava confuso. Não era mais uma história triste que eu presenciava, era a minha história e o meu sofrimento.

Olhei em volta e vi em cima da minha mesa, num álbum meio escondido pelos papéis, uma foto. Nela, ela me dava aquele sorriso que servia de combustível para me fazer seguir sempre em frente. Lembrei então dos seus últimos sussurros, antes de ser aplicada a anestesia: “não fique assim querido, eu sei que estaremos juntos em breve… não desista de si mesmo… sempre estarei contigo assim como você sempre estará comigo… não importa onde estivermos”. Ainda não podia acreditar naquelas palavras que ecoavam na minha mente. Elas me deram força, e o que antes eu não entendia – o motivo pelo qual ela me disse aquilo – assim ficara evidente. Eu não sei como, mas de alguma forma ela talvez soubesse que isso iria acontecer. Entrei novamente na minha sala pela janela e caminhei lentamente até a minha mesa. Olhei fixamente o porta-retratos e sussurrei de volta: “Eu sei querida. Não desistirei… Obrigado por ter salvado minha vida”.

Recompus-me, caminhei para fora da sala, e segui em frente pra o final de mais um capítulo da minha vida. Para mais um final de expediente.

Victor Bruno

07/06/2005

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